Misericórdia e perdão

O arrependimento: como se arrepender de verdade

Arrepender-se é voltar-se para Deus de todo o coração: reconhecer o pecado, doer-se dele, confessá-lo, reparar o dano e decidir mudar. Este guia explica, passo a passo, o que é o arrependimento e por que nenhum pecado está fora da misericórdia de Deus.

Atualizado em 2 de outubro de 20269 min de leitura

Um caminho estreito iluminado por lampiões levando até a porta aberta de uma igreja ao anoitecer, os campos em penumbra azulada.

Em resumo

  • O arrependimento, a metanoia do Evangelho, é uma mudança de coração: afastar-se do pecado e voltar-se para Deus com dor, confiança e o propósito de viver de outro modo.
  • O verdadeiro arrependimento tem passos claros — reconhecer o pecado, doer-se dele, confessá-lo, reparar o dano e mudar — e, para um católico, o pecado mortal se confessa no sacramento.
  • Deus perdoa todos os pecados, por mais graves que sejam, a quem se arrepende de verdade; não há limites para a sua misericórdia.
  • Você pode ter certeza do perdão pela palavra de Deus e pela absolvição do sacerdote, não pelo que sente.
  • Cair de novo no mesmo pecado não quer dizer que Deus o abandonou: o arrependimento é a obra de uma vida inteira.
Nesta página
  1. O que significa arrepender-se?
  2. Os passos do verdadeiro arrependimento
  3. Deus perdoa todos os pecados?
  4. Como sei que fui perdoado?
  5. E se eu cair de novo no mesmo pecado?
  6. Como se arrepender hoje: primeiros passos
  7. Perguntas frequentes

O que significa arrepender-se?

Arrepender-se significa afastar-se do pecado e voltar-se para Deus de todo o coração. A palavra que o Novo Testamento usa é metanoia: uma mudança de mente e de coração, uma verdadeira reorientação da vida, não um simples remorso (CIC 1431). Por isso Jesus começou a sua pregação chamando a arrepender-se e a crer no Evangelho (Marcos 1,15). O Catecismo chama isso de conversão interior e ensina que ela visa, antes dos atos exteriores de penitência, à conversão do coração (CIC 1430).

Essa mudança de coração já é um dom. O coração humano é pesado e endurecido, e é a graça de Deus que o faz voltar para ele (CIC 1432). Por isso o arrependimento não começa cerrando os dentes. Começa quando você descobre o quanto é amado e o seu coração se comove diante do peso do pecado. A dor que vem depois não é desespero: traz dentro de si o desejo e a decisão de mudar de vida, com esperança na misericórdia de Deus (CIC 1431).

Os passos do verdadeiro arrependimento

O verdadeiro arrependimento é mais do que se sentir mal. É um caminho com passos claros, os mesmos que a Igreja reúne no sacramento da Reconciliação: reconhecer o pecado, doer-se dele, confessá-lo, reparar o dano e decidir mudar. Você pode começá-los hoje, onde quer que esteja.

  1. Reconhecer o pecado com sinceridade

    Dê nome ao que você fez, sem desculpas e sem exagerar. Um exame de consciência tranquilo, à luz dos mandamentos e do Evangelho, mostra o que levar.

  2. Doer-se de verdade

    A contrição é a dor da alma e a reprovação do pecado cometido, junto com o propósito de não pecar mais (CIC 1451). A dor que nasce do amor a Deus chama-se perfeita; a que nasce do medo das consequências do pecado é imperfeita, mas também é um dom de Deus e um começo verdadeiro (CIC 1452-1453). Você pode exprimi-la com o ato de contrição.

  3. Confessá-lo

    Traga os seus pecados à luz diante de Deus. Para um católico, o pecado grave (mortal) se confessa a um sacerdote no sacramento, onde Cristo perdoa por meio dele (CIC 1456, 1461). A Igreja o pede ao menos uma vez por ano, e antes de comungar quando se tem consciência de pecado mortal (CIC 1457). Nosso guia sobre como se confessar dá as palavras.

  4. Reparar o dano

    O arrependimento chega até os seus atos. É preciso fazer o possível para reparar o dano: devolver o que foi roubado, restituir a fama, corrigir o que puder (CIC 1459). Por isso a Confissão termina com uma penitência.

  5. Decidir mudar

    O arrependimento olha para a frente. Decida, com a ajuda de Deus, evitar este pecado e aquilo que o leva a ele, e escolha um passo concreto para se afastar. Um propósito que não custa nada não muda nada.

Deus perdoa todos os pecados?

Sim. Não há pecado tão grande que Deus não perdoe quando você se arrepende. O Catecismo ensina que não há falta, por mais grave que seja, que a Igreja não possa perdoar, e que não há ninguém, por mais perverso e culpado que seja, que não possa esperar com confiança o perdão, contanto que o seu arrependimento seja sincero (CIC 982). Cristo morreu por todos e quer que as portas do perdão estejam sempre abertas a quem se afasta do pecado.

A Escritura o promete com simplicidade: se confessarmos os nossos pecados, Deus é fiel e justo para perdoá-los e nos purificar de toda injustiça (1 João 1,9). Deus não perdoa a contragosto; ele sai ao seu encontro.

O único pecado que não pode ser perdoado é aquele que a pessoa se recusa a trazer. Não há limites para a misericórdia de Deus, mas quem recusa deliberadamente essa misericórdia, negando-se a se arrepender, rejeita o perdão que lhe é oferecido (CIC 1864). Essa recusa, e não um ato específico, é o que o Evangelho chama de pecado contra o Espírito Santo; nosso guia sobre o pecado imperdoável explica isso. Portanto, a pergunta nunca é se o seu pecado é grande demais, mas apenas se você vai querer voltar.

Como sei que fui perdoado?

Você sabe que foi perdoado porque Deus o disse, não porque sente. Quando você se arrependeu e se confessou, a absolvição do sacerdote é a própria palavra de perdão de Cristo, e você pode se apoiar nela com todo o seu peso. O Catecismo ensina que este sacramento devolve a graça de Deus e costuma ser seguido de paz e serenidade de consciência (CIC 1468). Essa paz é um fruto do perdão, não a sua prova.

Os sentimentos vêm e vão; o perdão, uma vez dado, é um fato. Alguns saem da Confissão chorando de alívio; outros não sentem nada, e uns e outros ficam igualmente perdoados. Se você se confessou com sinceridade e decidiu mudar, confie na absolvição acima do seu estado de espírito. Uma oração de perdão pode ajudá-lo a descansar no que ele já fez.

E se eu cair de novo no mesmo pecado?

Arrepender-se de um pecado do qual você já havia se arrependido não é hipocrisia; é a forma normal da vida cristã. Os hábitos se desfazem devagar, e cair de novo não apaga a graça que você recebeu. O que importa é levantar-se cada vez e voltar, tantas vezes quantas forem necessárias. A Confissão frequente e sincera é o caminho mais seguro para quebrar um hábito de pecado, porque traz ao mesmo tempo o perdão e a força para recomeçar.

Dois cuidados. Não presuma da misericórdia de Deus: pecar de leve porque depois você pode se confessar esvazia o arrependimento da sua dor (CIC 2092). E não caia no extremo oposto, a acusação ansiosa e repetida por pecados já confessados; se é o seu caso, leia nosso guia sobre os escrúpulos e converse com o seu confessor, que o ajudará a encontrar a paz.

Como se arrepender hoje: primeiros passos

Você não precisa esperar até se sentir pronto. O arrependimento começa no momento em que você se volta, e estes pequenos passos podem começá-lo agora.

  1. Reserve cinco minutos de silêncio e peça ao Espírito Santo que lhe mostre os seus pecados com verdade e com misericórdia.
  2. Nomeie com sinceridade, diante de Deus, aquilo de que mais quer se afastar.
  3. Diga a ele que se dói e que quer mudar, com as suas próprias palavras ou com o ato de contrição.
  4. Decida a única coisa concreta que fará de modo diferente e a única que vai evitar.
  5. Se tiver pecado grave a confessar, procure os horários de Confissão de uma paróquia próxima e planeje ir.

Isso já é arrependimento: um coração que volta para casa. O Pai, como Jesus prometeu, não espera de braços cruzados, mas corre ao seu encontro.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre arrependimento e remorso?

O remorso é sentir-se mal pelo que você fez ou pelas suas consequências. O arrependimento é mais: é uma mudança de coração que o afasta do pecado e o volta para Deus, com dor verdadeira, propósito de mudar e esperança na sua misericórdia. Você pode sentir remorso sem se arrepender, e pode se arrepender de verdade mesmo quando o sentimento é fraco. O que o torna arrependimento é a conversão, não a força da emoção.

Será que Deus vai me perdoar?

Sim. Se você faz essa pergunta, o seu coração já está se voltando para ele, e é aí que o arrependimento começa. A Igreja ensina que não há ninguém, por mais culpado que seja, que não possa esperar com confiança o perdão, contanto que o arrependimento seja sincero. Seja o que for que tenha feito, leve-o a Deus com dor e disposição a mudar. Ele não perdoa de má vontade: a Escritura diz que é fiel e justo para perdoar e purificar de toda injustiça.

Deus perdoa todos os pecados, até os piores?

Sim. Nenhum pecado é grave demais para a misericórdia de Deus quando a pessoa se arrepende. O Catecismo diz que não há falta, por mais grave que seja, que a Igreja não possa perdoar, porque Cristo morreu por todos e mantém abertas as portas do perdão a quantos se afastam do pecado. O único pecado que fica sem perdão é a recusa de se arrepender e de aceitar a misericórdia, pois o perdão não pode ser imposto a quem não quer recebê-lo.

Posso me arrepender sem ir à confissão?

Você pode e deve voltar-se para Deus com dor a qualquer momento, e a contrição perfeita — a dor que nasce do amor a Deus — alcança o perdão mesmo antes da Confissão. Mas essa contrição inclui a intenção de se confessar assim que possível. Para um católico consciente de pecado mortal, a Confissão sacramental é o caminho comum e seguro de receber o perdão de Deus, e é exigida antes de comungar.

O que é o propósito de emenda?

É a decisão sincera, parte da verdadeira contrição, de evitar o pecado no futuro e de se afastar do que leva a ele. Não significa ter certeza de que nunca mais vai cair; significa que você honestamente pretende não cair e que tomará os meios razoáveis para isso. Sem esse propósito, a dor fica incompleta. Com ele, mesmo um pecado que você depois repita foi de verdade arrependido da primeira vez.

Como me arrependo se não sinto dor?

Comece pela vontade, não pelo sentimento. Peça a Deus o dom da dor verdadeira, diga a ele com sinceridade que você quer querer mudar e nomeie o pecado com clareza. A dor que nasce do medo das consequências do pecado, e ainda não do amor, já é um dom de Deus e basta para começar. Agir segundo a verdade de que algo está errado, mesmo antes de a emoção chegar, já é o princípio do arrependimento.

Fontes

Citadas por número e versículo, para que você possa lê-las por inteiro. No fim, a última palavra é do seu padre.

O Confession Compass é uma ferramenta educativa independente, não um órgão oficial da Igreja Católica. Nunca absolve pecados: somente um sacerdote, no Sacramento da Reconciliação, pode absolver.